COMPETITIVIDADE DA AGRICULTURA PORTUGUESA EM RISCO
Espanha assume estratégia de longo prazo para a sua agricultura
A renovação geracional é um problema real em Portugal que tem uma das mais baixas taxas de participação de jovens na agricultura da União Europeia, a rondar os 4%.
A apresentação do estudo promovido pela CAP veio demonstrar que mais importante do que incentivar a instalação de jovens, é determinante salvaguardar a exploração agrícola existente; com melhorias e com inovação, mas, acima de tudo, considerando a sua continuidade.
Este ponto fundamental deveria levar, tanto a nível europeu como nacional, a estabelecer orientações que permitissem ajustar/adaptar as regras de acesso a estas ajudas, tendo como foco a garantia da continuidade da exploração.
O aumento brutal dos custos de combustíveis e de fertilizantes, decorrente da guerra no Estreito de Ormuz, veio agravar muitíssimo a competitividade nacional face aos nossos mais diretos concorrentes que são os agricultores espanhóis.
O Governo do socialista Pedro Sanchez acabou de reforçar, no dia 29 de junho, as ajudas compensatórias para este aumento de custos, num montante global de 1 100 milhões, ou seja, mais do dobro da média europeia.
Em Portugal, o Governo tem primado pela ausência ou pelo miserabilismo nas ajudas propostas e ainda não recebidas: 20 milhões para os fertilizantes e uma verba não conhecida para o gasóleo agrícola.
Ao escrever estas linhas sinto vergonha em referir valores tão insignificantes, sobretudo vindos de um Governo que os agricultores apoiaram em momento difícil e que agora os abandonou sem qualquer remorso.
Mas, ainda mais preocupante, é a posição do Governo espanhol em defender que estas medidas têm de ir mais além da resposta pontual; têm de ser transformadas numa resposta estrutural a estes desafios.
Espanha já tem um grupo interministerial a trabalhar na criação de um ‘plano estatal de fertilizantes’ que se articula em torno de 3 eixos:
-apoio à agricultura de precisão, com ferramentas como drones e monitorização agronómica;
– reforço da autonomia estratégica, com redução da dependência de gás natural para fabrico de fertilizantes;
– aumento da transparência nos preços mediante um site de informação sobre o mercado, que permita antecipar tensões e responder com rapidez a episódios inflacionistas.
Face a esta intenção espanhola, urge que o Governo português apresente soluções para o mesmo problema. Se não o fizer, criará, definitivamente nos agricultores, uma classe com cujo apoio não poderá contar.
LUÍS MIRA
Secretário-Geral da CAP

